20.12.06
L’amour à trois dans le Cinéma [os bastardos de Jules Et Jim]

Jules Et Jim (François Truffaut, 1962) é talvez o ícone maior da Nouvelle Vague. Essencialmente, é um tratado sobre a amizade entre dois homens, que para proporcionar plenitude e felicidade um ao outro, são capazes de dividir o amor de uma mulher. A boêmia Paris no início do século XX é o palco primeiro para essa história de amor a três, que não só reinventou o Cinema francês, como também serve de inspiração para inúmeras outras obras do gênero. Adaptado do romance homônimo de Henri-Pierre Roché, o filme de Truffaut narra a grande amizade entre o alemão Jules (Oskar Werner) e o francês Jim (Henri Serre), e o amor de ambos por Catherine (Jeanne Moreau, inesquecível). Através de várias décadas, os três boêmios formam um libertário triângulo amoroso fadado à tragédia. Sem dúvida, uma das mais belas histórias contadas no Cinema. Jules Et Jim foi exaustivamente referenciado, e pateticamente copiado ao longo dos anos. Mas aqui reside uma grande armadilha. Como falar de amor a três no Cinema, sem trazer referências de Jules Et Jim? Como não homenageá-lo? Entretanto, como fazer isso, sem copiá-lo? Desse impasse nasceram os bastardos de Jules Et Jim, alguns belos, outros terríveis. Vamos a eles:
 Três Formas de Amar [Threesome/1994] Lara Flynn Boyle, Stephen Baldwin e Josh Charles protagonizam essa deliciosa comédia autobiográfica, inspirada nas experiências que o cineasta Andrew Fleming vivenciou no período da faculdade. O filme começa centrado em dois estudantes: o cerebral, sexualmente confuso, Eddy, e o marombado, intelectualmente obtuso, Stuart. A rotina dos dois muda radicalmente quando, por um erro da Universidade, a estudante Alex é mandada para o alojamento onde eles vivem. Com a forçada convivência, logo os hormônios comandam a situação, enquanto os interesses afetivos e sexuais correm sem rumo pela tríade. Stuart quer Alex, que se apaixona por Eddy, que deseja Stuart. Cartas na mesa, o filme se desenrola na frustração e sublimação desses desejos. Obs: Jules Et Jim é citado no filme por Eddy, que o assistiu em sua aula de Cinema Francês.
Esplendor [Splendor/1999] Verônica (Kathleen Robertson) é uma moça certinha, de 22 anos, que se apaixona simultaneamente por dois rapazes: o baterista Zed (Matt Keeslar), e o crítico de música alternativa Abel (Johnathon Schaech). Vivendo uma situação sem precedentes em sua vida, Verônica descobre que sente igual afeição pelos dois e, com o tempo, acaba convencendo-os a aceitar o triângulo amoroso e, eventualmente, morarem juntos. Dirigido pelo polêmico Gregg Araki (do maravilhoso Mysterious Skin/2004), Esplendor decepciona e revela-se um filme mediano, tout court. Vale o preço do DVD pela ótima trilha sonora, que inclui New Order, Blur, Air, Chemical Brothers, Lush, Suede, Slowdive e Fatboy Slim.
E Sua Mãe Também [Y Tu Mamá También/2001] Um dos precursores do novíssimo cinema mexicano, ao lado de Amores Brutos (Amores Perros/2000, de Alejandro González Iñarritu), E Sua Mãe Também co-inaugura a estética da Decadência Lírica, que propõe um olhar onírico para a miséria social do México. Neste road-movie latino, os amigos Tenoch (Diego Luna) e Julio (Gael Garcia Bernal) são dois adolescentes classe média, que se amarram em las chicas, marijuana y puñeta. Alienados da realidade de seu país, eles estão em férias, entediados, e suas namoradas viajaram juntas para a Europa. Na festa de casamento da irmã de Tenoch, eles conhecem “la española” Luisa (Maribel Verdú), e propõem a ela uma viagem a uma praia que eles inventaram. La española mucho loca aceita a proposta e os três partem para uma jornada de auto-conhecimento e libertação. O ménage só vem ao final, quando todos os três já exorcizaram seus próprios demônios e resolveram as diferenças entre eles. Alfonso Cuarón escolhe usar uma linguagem quase documental, com narração em off e planos muito abertos, que emprega ao filme um gosto amargo de verdade inconveniente, difícil de engolir. Mas como remédio bom, um mal necessário.
As Regras da Atração [The Rules of Attraction/2002]
Dirigido por Roger Avary e inspirado no livro de Bret Easton Ellis (de American Psycho), As Regras da Atração é um filme cruel. No enredo, Sean Bateman (James Van Der Beek) é um traficante de drogas, que se apaixona por Lauren (Shannyn Sossamon), porque acredita que a moça é a remetente de uma série de cartas perfumadas que ele recebe. Ao mesmo tempo, Sean se aproxima de Paul (Ian Somerhalder), bissexual, ex-namorado de Lauren, que nutre uma paixão platônica por ele. Em As Regras da Atração, o amor não tem vez. Os personagens são movidos pelo desejo, pela frustração, pela solidão, mas nunca pelo amor. Um dos grandes atrativos deste filme é a narrativa. A princípio, ela vem recortada, onde os três personagens principais dividem a locução da história, que flui de diversas formas, abusando de flashbacks, flashforwards e telas divididas. Com esse recurso, Avary antecipa o desfecho de diversas situações, nos fazendo sentir a dor antes de receber o golpe. Delicioso. 
Os Sonhadores [Il Sognatore - The Dreamers/2003] Pense em O Último Tango em Paris (Ultimo Tango a Parigi/1972). Pronto! Agora, quem melhor que Bertolucci para mostrar toda a tensão sexual contida entre quatro paredes? Ninguém. Em Os Sonhadores, o adolescente americano Matthew (Michael Pitt) vai estudar em Paris, em 1968, ano da revolução (que nunca foi) dos estudantes pelas rues et places da cidade-luz. Durante uma manifestação estudantil na Cinémathèque Française de Henri Langlois, Matthew conhece Isabelle (Eva Green) e seu irmão gêmeo Théo (Louis Garrel). Com os pais dos franceses viajando, os três ficam confinados um mês dentro de um apartamento discutindo Cinema, Literatura, Música, Socialismo; e fazendo sexo. Muito sexo. Logo no começo de sua estadia naquele apartamento, Matthew já descobre que os irmãos vivem um relacionamento incestuoso. Enquanto se apaixona por Isabelle, ele percebe que a moça não consegue romper os laços “fraternos” com Théo e, com o tempo, acaba se envolvendo com o garoto também. Os Sonhadores é, além de tudo, um pretexto para Bertolucci homenagear o Cinema. Toda a película é permeada por flashs de filmes clássicos, sem contar as inúmeras referências diegéticas espalhadas na mise en scène.
Uma Casa no Fim do Mundo [A Home at the End of the World/2004] Adaptado do romance homônimo de Michael Cunningham (As Horas), Uma Casa no Fim do Mundo narra três décadas na vida de dois amigos. Bobby (Colin Farrell) e Jonathan (Dallas Roberts) cresceram juntos. Para Jonathan, Bobby representa todo um universo desconhecido, de amor livre e drogas maravilhosas. Bobby encontra em Jonathan a possibilidade de uma convivência familiar que nunca conheceu. Depois de uma adolescência regada a maconha, LSD e punhetas trocadas, os amigos seguem rumos diferentes, para se reencontrar mais tarde, nos loucos anos 80. É nessa altura que aparece Clare (Robin Wright Penn), a fag-hag de Jonathan, que se apaixona por Bobby. A princípio, os três dividem um apartamento, e mais tarde compram uma casa num fim de mundo, onde iniciam uma família bem incomum. Dirigido por Michael Mayer, Uma Casa no Fim do Mundo é um retrato super sensível sobre amizade, amor e aceitação, como as únicas armas eficientes contra a solidão e a dor. Destaque para Sissy Spacek, na pele da mãe tresloucada de Jonathan.
Duchas Frias [Douches Froides/2005] Ahh, o atual Cinema francês e seu fetiche pelos conflitos de classes, pelo discreto charme da burguesia, apodrecida em sua essência! Duchas Frias é o bem-elogiado début do diretor Antony Cordier em grandes festivais. O filme é centrado em Mickael (Johan Libereau), um adolescente de família muito pobre: o pai, um taxista alcoólatra que perde a habilitação por dirigir embriagado; a mãe, uma faxineira de uma academia de ginástica, onde Mickael faz seus treinos de judô. Ele namora a bela Vanessa (Salome Stevenin), mas se sente irrefreavelmente compelido a dividi-la (sexualmente) com seu companheiro de judô, Clement (Pierre Perrier). Após sublimar esse desejo num ménage muito sexy sobre os tatames, Mickael começa a se sentir ameaçado por Clement, que vem de uma família rica e, aparentemente, bem-estruturada. Além dos conflitos gerados pelo amadurecer pessoal e sexual dos três jovens, Duchas Frias ainda toca de forma muito sóbria nas diferenças de classes e a ferida aberta que isso representa na França. _____________________________________
“1 fille / 2 garçons / 3 possibilités!”
escrito por Diego . 22:59
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9.12.06
Vovó Mística e a Coleção de Gente
Era uma vovozinha que trazia incrustados no semblante todos os estereótipos de uma vovozinha. Velhinha, não como as avós de hoje, siliconadas, que saem aos bandos de curtumes estéticos para esticar a pele. Uma boa velhota, com cabelos amarelecidos, invariavelmente presos à cabeça por um coque. Recendia fogão de lenha, alfazema e pão-de-ló. Tinha bigodes esparsos que teimavam em permanecer negros; resistência que as sobrancelhas, há muito, abandonaram. Era minha avó. Vovó perdera a visão muito antes da chegada dos netos. Essa era uma das tantas histórias de tempos imemoriáveis, que chegavam a mim revestidas de mistérios pela boca dos meus pais. Contavam que vovó sofria de catarata. Um certo dia, num mutirão do governo, um médico de questionável talento operou um dos olhos da vovó. Ele insistira que pouparia tempo e trabalho se consertasse os dois olhos na mesma cirurgia, mas vovó, sempre desconfiada, achou melhor não arriscar. Perdera um olho naquele dia. O outro, com o tempo, foi devorado pela catarata. Vovó ficou cega, mas, como se para aumentar a aura de mistérios que eu, menino, atribuía a ela, adquiriu uma espécie de sexto sentido espantoso. Sempre sabia exatamente o que estava acontecendo com todos de sua prole, e era capaz de indicar com precisão cirúrgica (não a do oftalmologista que a operou) em que lugar da casa se poderia encontrar qualquer objeto perdido. Sobretudo, vovó tinha um talento especial para descobrir o que quer que se tentasse esconder dela. Por muito tempo, esse poder místico me obrigou a fingir todo tipo de doenças e indisposições, que me pudessem livrar dos passeios dominicais à casa da vovó. Ficava apavorado com a idéia da velhinha descobrir as brincadeiras de médico com as primas, ou que ela soubesse o que a molecada realmente escondia nos jogos de pique - esconde. Numa das temidas visitas de domingo, vovó me apresentou à sua coleção de gente. Era um álbum de retratos muito velho, revestido em couro, com páginas carcomidas de onde se desprendiam fotografias, que pareciam ter sido salvas de uma guerra civil em tempos muito remotos. Os personagens monocromáticos pareciam todos, crianças e adultos, velhos demais. Suas roupas lembravam os figurinos dos filmes-cabeça que papai cultuava, ou das novelas de época as quais mamãe assistia. Com uma cerimônia que eu desconhecia na vovó, ela tirou o calhamaço empoeirado do fundo de uma gaveta na cômoda. Se esgueirou de volta à cama e, cheia de cuidados, me entregou aquilo que ela chamava sua “coleção de gente”. Vindo da vovó, sempre tão comedida, aquele ritual parecia prenunciar o fim dos tempos. Vovó me mandou abrir o álbum, e me fez descrever o que eu via nele. Uma após outra, as velhas fotografias arrancavam pequenos suspiros da velhinha. Um homem com costeletas muito peludas, como tarântulas; uma senhora elegante, segurando um bebê bastante feio; as gêmeas saídas de um livro do Stephen King; cada imagem descrevida instigava uma sutil transformação no rosto axadrezado da vovó. Em determinado momento, ela gesticula e pede para si o álbum. Entrego-o ainda aberto, ao que ela começa a passear as mãos trêmulas pelos retratos. Foi a única vez em que a vi chorar. Os olhos, que eu julgava mortos, estavam marejados e mais tristes do que nunca. Aquele rápido instante durou uma lágrima, mas ficou para sempre congelado no tempo e na memória. Eu nunca antes me senti tão penalizado por alguém; e nunca depois me senti tão próximo de ninguém.
escrito por Diego . 04:26
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7.12.06
Mórbida Coincidência 
“Às oito horas, em frente ao Cine Vera Cruz, no centro”. Era tudo o que dizia o bilhete enviado por Lara naquela manhã. Anna examinou o papel diversas vezes, como se esperasse encontrar algum código secreto naquelas palavras. Não havia nenhum. Aquela realidade torpe exigia uma resolução, esperava sua decisão. Queimou o papel. Às oito horas, em frente ao Cine Vera Cruz, dizia de si para si, como um mantra que, momentos depois, seria interrompido pelo choro do bebê no quarto. Sufocou o pranto do anjinho com a chupeta e saiu evitando olhar muito para ele. Dirigiu-se ao armário, jogando umas poucas mudas de roupa na maleta escura. Depois compraria umas novas. Lara cuidaria disso, afinal, vestia-se tão bem. Decidira usar o cinto de duas voltas que a amiga lhe dera em seu aniversário, num dos poucos momentos furtivos em que tiveram intimidades. Aquele marido, que não passava de um estorvo, nunca lhe dava presentes, nunca procurou mimá-la. Não aceitava que uma mulher tivesse necessidades. Não aceitava a vaidade. Na verdade, devia odiar as mulheres. Casou-se com ela porque já estava velho demais para se dar o luxo de ser solteiro. Perdera as contas de quantas vezes, durante suas obrigações com o marido, tivera que conter o vômito iminente. Tudo isso e mais um sem número de pequenas coisas, compeliu-lhe uma cólera insuportável pelo Estorvo. Na verdade, o que mais lhe irritava eram as pequenas coisas. Tornou-se mal-humorada e nervosa. Tinha sofrido muito, em silêncio, renunciando a seus sonhos, afogando seus desejos mais íntimos. Teria suportado sua desgraça, num estoicismo mudo, se não tivesse conhecido Lara. Encontrava na amiga todas as suas vaidades esparsas, desfeitas. Olhava para ela como num espelho que refletia o passado. Via-se nela como fora outrora. Podia ser que não a amasse; talvez só estivesse em busca de si mesma. Não importava mais. Já havia se decidido. Às oito horas, em frente ao Cine Vera Cruz, no centro. Lá encontraria Lara, metida no vestido vermelho que realçava a palidez de sua pele, munida com um belo decote para afrontá-la. Os cabelos estariam presos, deixando cair alguns poucos fios sobre a nuca. Estaria linda, sentada sobre a mala, à sua espera. Mais uma vez lembrou do marido. Tinha viajado e só voltaria no dia seguinte para o almoço. Ficará com fome, pensou, e afastou o crápula do pensamento. Não tinha tempo para essas divagações. Tinha que agir antes que desistisse. Foi ao banheiro e abriu o registro para encher a banheira. Caminhava na direção do quarto do bebê, mas num instante, hesitou e foi para a cozinha. De súbito, tomou um gole do curaçau que o Estorvo servia às visitas nos domingos. Precisava ter coragem; narcotizar-se de alguma forma para suportar a si própria durante a agonia que estava por vir. Novamente voltou ao quarto, aproximou-se do berço e tomou o bebê nos braços. Seus movimentos eram lentos, estava apática, esquizóide; tentava não pensar. Foi ao banheiro, uma das mãos fechou o registro, a outra suportava o filho no colo. Cuidadosamente, mergulhou o menino na água morna e acariciava seu peito róseo. Sentia o coração da criança bater apressado (ou seria o seu?). Num ímpeto, afundou o filho na banheira e permaneceu assim, imutável, por mais de um minuto. Não pensava em nada, apenas fitava as últimas bolhas vindas do fundo. Deixou o corpinho inerte repousando na banheira. Cambaleante, voltou à cozinha. Em cima da mesa, avistou o copo há pouco usado e uma mosca se debatendo no fundo, nos restos do curaçau. Lembrou-se do filho e deixou escapar uma lágrima; a única que derramou em todos esses anos de tortura. Não chorou quando foi obrigada a casar-se; assim como não chorou quando estuprada pelo marido em suas núpcias. Conteve o pranto, meses depois, com o fruto dessa violência. Mas agora, observando os espasmos do inseto no copo, toma consciência do que acaba de fazer; sente correr pelo rosto a lágrima que roubara de um monstro. Não choraria de novo. Nunca mais. Vinte e cinco minutos depois estava em frente ao Cine Vera Cruz, faltando dois minutos para as oito e, lá permaneceu até as três da manhã, quando desistiu de esperar por Lara. Voltou para casa, subiu lentamente as escadas, como se caminhasse para o nada. Em cada degrau uma lembrança, e Lara em todas elas. Foi para o quarto do casal, tirou as roupas da mala e meteu de novo no armário, sem cuidados. Desfez as voltas do cinto, amarrou no pescoço e enforcou-se pendurada no lustre. No dia seguinte, às oito horas, o Cine Vera Cruz exibiria aquele que foi um dos maiores sucessos do cinema nacional: “Matou a família e foi ao cinema”, de Júlio Bressane. Apenas uma mórbida coincidência.
escrito por Diego . 22:17
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