7.12.06


Mórbida Coincidência




Às oito horas, em frente ao Cine Vera Cruz, no centro”. Era tudo o que dizia o bilhete enviado por Lara naquela manhã. Anna examinou o papel diversas vezes, como se esperasse encontrar algum código secreto naquelas palavras. Não havia nenhum. Aquela realidade torpe exigia uma resolução, esperava sua decisão. Queimou o papel. Às oito horas, em frente ao Cine Vera Cruz, dizia de si para si, como um mantra que, momentos depois, seria interrompido pelo choro do bebê no quarto. Sufocou o pranto do anjinho com a chupeta e saiu evitando olhar muito para ele. Dirigiu-se ao armário, jogando umas poucas mudas de roupa na maleta escura. Depois compraria umas novas. Lara cuidaria disso, afinal, vestia-se tão bem. Decidira usar o cinto de duas voltas que a amiga lhe dera em seu aniversário, num dos poucos momentos furtivos em que tiveram intimidades. Aquele marido, que não passava de um estorvo, nunca lhe dava presentes, nunca procurou mimá-la. Não aceitava que uma mulher tivesse necessidades. Não aceitava a vaidade. Na verdade, devia odiar as mulheres. Casou-se com ela porque já estava velho demais para se dar o luxo de ser solteiro. Perdera as contas de quantas vezes, durante suas obrigações com o marido, tivera que conter o vômito iminente. Tudo isso e mais um sem número de pequenas coisas, compeliu-lhe uma cólera insuportável pelo Estorvo. Na verdade, o que mais lhe irritava eram as pequenas coisas. Tornou-se mal-humorada e nervosa. Tinha sofrido muito, em silêncio, renunciando a seus sonhos, afogando seus desejos mais íntimos. Teria suportado sua desgraça, num estoicismo mudo, se não tivesse conhecido Lara. Encontrava na amiga todas as suas vaidades esparsas, desfeitas. Olhava para ela como num espelho que refletia o passado. Via-se nela como fora outrora. Podia ser que não a amasse; talvez só estivesse em busca de si mesma. Não importava mais. Já havia se decidido. Às oito horas, em frente ao Cine Vera Cruz, no centro. Lá encontraria Lara, metida no vestido vermelho que realçava a palidez de sua pele, munida com um belo decote para afrontá-la. Os cabelos estariam presos, deixando cair alguns poucos fios sobre a nuca. Estaria linda, sentada sobre a mala, à sua espera. Mais uma vez lembrou do marido. Tinha viajado e só voltaria no dia seguinte para o almoço. Ficará com fome, pensou, e afastou o crápula do pensamento. Não tinha tempo para essas divagações. Tinha que agir antes que desistisse. Foi ao banheiro e abriu o registro para encher a banheira. Caminhava na direção do quarto do bebê, mas num instante, hesitou e foi para a cozinha. De súbito, tomou um gole do curaçau que o Estorvo servia às visitas nos domingos. Precisava ter coragem; narcotizar-se de alguma forma para suportar a si própria durante a agonia que estava por vir. Novamente voltou ao quarto, aproximou-se do berço e tomou o bebê nos braços. Seus movimentos eram lentos, estava apática, esquizóide; tentava não pensar. Foi ao banheiro, uma das mãos fechou o registro, a outra suportava o filho no colo. Cuidadosamente, mergulhou o menino na água morna e acariciava seu peito róseo. Sentia o coração da criança bater apressado (ou seria o seu?). Num ímpeto, afundou o filho na banheira e permaneceu assim, imutável, por mais de um minuto. Não pensava em nada, apenas fitava as últimas bolhas vindas do fundo. Deixou o corpinho inerte repousando na banheira. Cambaleante, voltou à cozinha. Em cima da mesa, avistou o copo há pouco usado e uma mosca se debatendo no fundo, nos restos do curaçau. Lembrou-se do filho e deixou escapar uma lágrima; a única que derramou em todos esses anos de tortura. Não chorou quando foi obrigada a casar-se; assim como não chorou quando estuprada pelo marido em suas núpcias. Conteve o pranto, meses depois, com o fruto dessa violência. Mas agora, observando os espasmos do inseto no copo, toma consciência do que acaba de fazer; sente correr pelo rosto a lágrima que roubara de um monstro. Não choraria de novo. Nunca mais. Vinte e cinco minutos depois estava em frente ao Cine Vera Cruz, faltando dois minutos para as oito e, lá permaneceu até as três da manhã, quando desistiu de esperar por Lara. Voltou para casa, subiu lentamente as escadas, como se caminhasse para o nada. Em cada degrau uma lembrança, e Lara em todas elas. Foi para o quarto do casal, tirou as roupas da mala e meteu de novo no armário, sem cuidados. Desfez as voltas do cinto, amarrou no pescoço e enforcou-se pendurada no lustre. No dia seguinte, às oito horas, o Cine Vera Cruz exibiria aquele que foi um dos maiores sucessos do cinema nacional: “Matou a família e foi ao cinema”, de Júlio Bressane. Apenas uma mórbida coincidência.

escrito por Diego . 22:17   4 elucubrações

4 Comments:

At 10:59 PM, Blogger Julio said...

Como ja te disse em diversas oportunidades, adoro esse texto! Muito bom te ver de novo com um blog, cara! =)

Abracao!

 
At 11:15 AM, Anonymous Anônimo said...

já te uma vez que você é um pacote de chocooky de baunilha com gotas de chocolate. te LER me provoca a mesma sensação. uma delícia. seja bem-vindo de volta, agora, com uma nova leitora assídua =*

 
At 12:18 AM, Anonymous Anônimo said...

Bom...
parece que vc nao é o único adolescente daqui...
hehehehehe
ADORO ESSE TEXTO!!!!!!!!!!!!
Você já sabe, mas não custa repetir.
Mas vê se não apaga meu comentario desta vez.
Abração!

 
At 9:36 AM, Anonymous Anônimo said...

i remember when you showed me this on a piece of paper and asked me what i thought. I remember you said your mother asked WHY??? and so did I... and now it has an illustration??? Awesome!

 

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