Vovó perdera a visão muito antes da chegada dos netos. Essa era uma das tantas histórias de tempos imemoriáveis, que chegavam a mim revestidas de mistérios pela boca dos meus pais. Contavam que vovó sofria de catarata. Um certo dia, num mutirão do governo, um médico de questionável talento operou um dos olhos da vovó. Ele insistira que pouparia tempo e trabalho se consertasse os dois olhos na mesma cirurgia, mas vovó, sempre desconfiada, achou melhor não arriscar. Perdera um olho naquele dia. O outro, com o tempo, foi devorado pela catarata.
Vovó ficou cega, mas, como se para aumentar a aura de mistérios que eu, menino, atribuía a ela, adquiriu uma espécie de sexto sentido espantoso. Sempre sabia exatamente o que estava acontecendo com todos de sua prole, e era capaz de indicar com precisão cirúrgica (não a do oftalmologista que a operou) em que lugar da casa se poderia encontrar qualquer objeto perdido. Sobretudo, vovó tinha um talento especial para descobrir o que quer que se tentasse esconder dela. Por muito tempo, esse poder místico me obrigou a fingir todo tipo de doenças e indisposições, que me pudessem livrar dos passeios dominicais à casa da vovó. Ficava apavorado com a idéia da velhinha descobrir as brincadeiras de médico com as primas, ou que ela soubesse o que a molecada realmente escondia nos jogos de pique - esconde.
Numa das temidas visitas de domingo, vovó me apresentou à sua coleção de gente. Era um álbum de retratos muito velho, revestido em couro, com páginas carcomidas de onde se desprendiam fotografias, que pareciam ter sido salvas de uma guerra civil em tempos muito remotos. Os personagens monocromáticos pareciam todos, crianças e adultos, velhos demais. Suas roupas lembravam os figurinos dos filmes-cabeça que papai cultuava, ou das novelas de época as quais mamãe assistia. Com uma cerimônia que eu desconhecia na vovó, ela tirou o calhamaço empoeirado do fundo de uma gaveta na cômoda. Se esgueirou de volta à cama e, cheia de cuidados, me entregou aquilo que ela chamava sua “coleção de gente”. Vindo da vovó, sempre tão comedida, aquele ritual parecia prenunciar o fim dos tempos.
Vovó me mandou abrir o álbum, e me fez descrever o que eu via nele. Uma após outra, as velhas fotografias arrancavam pequenos suspiros da velhinha. Um homem com costeletas muito peludas, como tarântulas; uma senhora elegante, segurando um bebê bastante feio; as gêmeas saídas de um livro do Stephen King; cada imagem descrevida instigava uma sutil transformação no rosto axadrezado da vovó. Em determinado momento, ela gesticula e pede para si o álbum. Entrego-o ainda aberto, ao que ela começa a passear as mãos trêmulas pelos retratos.
9.12.06Vovó Mística e a Coleção de Gente Era uma vovozinha que trazia incrustados no semblante todos os estereótipos de uma vovozinha. Velhinha, não como as avós de hoje, siliconadas, que saem aos bandos de curtumes estéticos para esticar a pele. Uma boa velhota, com cabelos amarelecidos, invariavelmente presos à cabeça por um coque. Recendia fogão de lenha, alfazema e pão-de-ló. Tinha bigodes esparsos que teimavam em permanecer negros; resistência que as sobrancelhas, há muito, abandonaram. Era minha avó. Foi a única vez em que a vi chorar. Os olhos, que eu julgava mortos, estavam marejados e mais tristes do que nunca. Aquele rápido instante durou uma lágrima, mas ficou para sempre congelado no tempo e na memória. Eu nunca antes me senti tão penalizado por alguém; e nunca depois me senti tão próximo de ninguém.
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9.12.06

5 Comments:
Putz! Lindo, Di, como sempre!
Abracao! =)
o que dizer? lindo. me lembrou muito minha avó que faleceu e maio desse ano e de quem sinto saudades. beijos!
Atualiza mais isso nao? =(
O Muse era o 10º da minha lista ate alguns dias atras... Dae lembrei do CD do PJ e acabei colocando ele no lugar. Realmente nao gosto dessa ideia de fazer listas... E acho que top 15 ainda teria sido pouco! =P
Abracao!
Bom...
o que dizer???
que é lindo já disseram...
como sempre, já disseram...
mas fiquei curioso...
que gemeas sao essas do Stephen King??
Abração.
Este seu texto deixou meus olhos marejados de lágrimas tamanha a sensibilidade.
E olha que já conhecia a história!
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